segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Psicopatias - I: Perdas

Numa conversa recente com uma amiga falávamos como ambos precisávamos de fazer terapia. Nada de novo para mim, há muito que tenho essa convicção.


O problema é que consultas de psicólogos/psiquiatras são demasiado caras para a minha carteira e, por motivos profissionais, já falei com uns quantos e ainda estou para encontrar um que fosse normal. Por normal leia-se alguém que me pareça equilibrado e equipado para prestar conselhos válidos. A esmagadora maioria dos que conheci parecia precisar de fazer terapia.


Portanto, aproveito este espaço de total liberdade para mim - adoro escrever quando me apetece, sobre o que me apetece e como me apetece - para fazer a minha terapia.


Todo este intróito para falar sobre perda. Estive praticamente um ano a adiar a escrita deste post. Porque é mais visceralmente pessoal. Porque sinto que, enquanto adulto, nunca fui capaz de lidar com a perda de vida. A morte súbita do meu pai foi, de longe, o pior dia da minha vida. E ainda não me sinto capaz de escrever sobre isso. A morte súbita de um colega, mentor e amigo deixou-me de cama dois dias, sem forças, derreado, de rastos.


E não são só perdas humanas que me abalam. Não pretendo comparar pessoas com animais, esse debate não me interessa. Sou, fui, tutor de três gatos, que me acompanham há muitos anos. Tenho com eles uma relação de amor e cumplicidade que não consigo, nem pretendo, explicar. Mas, acima de tudo, tenho um sentimento de responsabilidade desde o primeiro momento. Quero que vivam em condições e quando, por alguma razão, eles sofrem, eu sofro também.


Há sensivelmente um ano a W. começou a ficar apática. Estranhei e acabei por levá-la ao veterinária. Lá descobriram um problema no rim que podia ser potencialmente grave. Nunca mais nada foi igual. Exames, análises, tratamentos sem fim... E internamentos. Ter de deixar aquela gata sempre tão independente, sempre tão dona do seu nariz, sempre tão ciosa do seu espaço partiu-me o coração. Fui visitá-la todos os dias. Chorei em todos eles. Chorei quando vi que ela não estava melhor, chorei quando ia para casa, chorei quando ela estava melhor, chorei quando chegava a casa. Chorei quando a trouxe para casa. Chorei sempre que não lhe conseguia dar a medicação em condições. Chorei quando voltei a ter de a deixar. Senti-me um falhado. Não consegui cumprir com a minha obrigação de a proteger. Devia ter feito melhor.


Quando a situação ficou crítica, achámos que seria melhor ela vir para casa, estar no seu espaço, com os seus manos, com os seus humanos. Acabou por partir deitada numa caminha que gostava junto à lareira, ela que sempre teve uma paixão pelo calor.


Aquele mês quebrou-me. Física e emocionalmente. Passado um ano, lembro-me dela todos os dias, cheio de saudades das suas características sui generis.


Fiz o melhor que sabia. Fraco consolo.


E agora, doutor?

8 comentários:

  1. A perda de animais é sempre complicada, já perdi um cão que adorava, mas agora lembro- me dele com carinho. Um dia, se puder, arranjo outro. Quanto à perda de familiares próximos, nunca me aconteceu, por isso não lhe posso dar bons conselhos. A única pessoa mais próxima, mas que só tinha convivência uma vez por ano, durante 1 mês, quando era mais nova, era a minha avó materna. Pessoa de personalidade forte e excelente contadora de histórias. Quando faleceu, eu já estava à espera, devido à problemas de saúde, daí se calhar, não me ter custado muito. Mas não choro a sua morte quando me lembro dela, lembro-me apenas dos bons momentos que tínhamos quando estávamos juntas. Temos que nos relembrar que a morte faz parte da vida, é a última etapa. Lembrar os que partiram, mas que fizeram parte da nossa vida, já em si é uma benção. Cuide- se.

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  2. quando pertinente tambem refiro a duvida quanto á capacidade "real" dos psicologos/psiquiatras. E nao só, como tambem refere.
    Mas, áparte o custo-beneficio, acho que a sua situaçao seria melhorada, e com possibilidade de o fazer mais resistente.

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  3. Psicologos, por mais malucos que sejam, vale sempre a pena nem que seja para verbalizar o que sentimos. Com a certeza que não vão sair dali as nossas conversas.

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  4. Concordo. Mas não poderíamos fazer isso com amigos? Num ambiente de sinceridade, confidencialidade e sem juízos de valor?

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  5. Permitam-me a intrusão.
    Com profissionais da área, é precisamente quando podemos fazê-lo num ambiente 100% transparente, confidencial e sem juízos de valor.
    O que eu sinto é que com a psicóloga, por não a conhecer de lado nenhum e estar certa de que já ouviu muita coisa, é onde me sinto mais à vontade para ser totalmente honesta e vulnerável. Com amigos não. Apesar de também serem essenciais na partilha de opiniões.

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  6. É um bom ponto de vista. Talvez dependa das pessoas também. Confesso alguma estranheza em falar abertamente cara a cara com uma pessoa que não conheço. Por outro lado, calculo que esta dificuldade seja um bom ponto de partida para debater com um psicólogo.

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  7. Muita força. Também perdi a minha gata este ano, com quem partilhei vida durante 16 anos. Fiz tudo o que pude por ela. Custa muito.

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